domingo, 6 de maio de 2012
Suave é a noite
sábado, 10 de dezembro de 2011
VInho e Farofa
Creio que a falta de textos específicos deriva de sua grande complexidade, afinal temos no Brasil mais tipos de farofa do que a Espanha tem de paellas. Outro fator que me parece importante destacar é que ninguem come ela sozinha, farofa sempre vem servida como acompanhamento ou complemento, criando desta forma mais uma dificuldade na escolha do vinho adequado. Trata-se de um casamento triangular: vinho, farofa e prato principal.
Inicialmente precisamos decidir qual será mesmo o prato principal, se algum tipo de ave ou carne de porco, escolher a fórmula da farofa correta e, por fim, buscar o vinho que produzirá o enlace perfeito. Tenho algumas sugestões. Para o Natal, aves, desnecessário explicar, ciscam para trás, é tradição e de conhecimento geral. Perú assado é uma boa pedida. Não pode ser qualquer farofa, nunca e de forma alguma farofa pronta, industrializada ou comprada em supermercado, tem de ser preparada no dia, no capricho, enriquecida com passas e frutas secas, com cajú picado fica muito bom. Um tinto cai bem, melhor evitar vinhos encorpados, supertânicos, carregados na madeira e de grau alcoólico elevado, é uma combinação que pede delicadeza, suavidade e frescor. Pode ser um Merlot estilo jovem da Serra Gaúcha, safra recente, um PInot Noir chileno produzido próximo a costa do Pacífico, um Shiraz da Patagônia de latitude austral ou então algum branco, um Chardonnay com passagem por barrica, maduro, com bom volume em boca. Para o Ano Novo cortes suínos. É o contrário, neste caso, escarafuncham para frente, vão abrindo caminhos. Vinhos festivos, espumantes, todos e muitos. Não precisa esperar a meia-noite, melhor abrir logo cedo neste dia, com sabrage ou pelo método tradicional, com estouro ou sem estouro da rolha, não se preocupe com perda de espumas e efervescências, a celebração da vida é muito mais importante.
sábado, 3 de dezembro de 2011
O arroz com linguiça e seus vinhos
Vulgarmente conhecido como Arroz de China, versão putanesca do Arroz de Carreteiro, é uma especialidade da culinária tradicional do Rio Grande do Sul. Rápido de fazer, o modo de preparar é muito simples e fácil, resultando, normalmente, em pratos nutritivos e saborosos, uma grande salvação em momentos de aperto ou de fome. Leva linguiça e leva arroz, obviamente. A linguiça pode ser grossa ou pode ser fina, campeira de rolo, ou amarrada de par em par. Pode ser mista, de carne pura, de pernil de porco, calabresa, toscana, defumada, apimentada, curada ou fresca. Já o arroz pode ser longo fino, integral, selvagem, cateto, branco, preto e vermelho, ou então, derivado das variedades Labelle, Bluebelle e Belle Patna. Não precisa muito tempero, pois toda linguiça que se preze já vem carregada em condimentos e conservantes, bastando apenas algumas correções pontuais, porem, sempre é bom refogar uma cebolinha e um dente de alho picado antes de qualquer outra providência. Deve-se cortar a linguiça em pedaços parelhos, quase uniformes, se for da grossa, cortar com espessura equivalente a metade de seu diâmetro, se da fina, cortar com tamanho igual ao dobro do diâmetro dela. Não precisa usar régua, com algum treino a gente aprende a medir de olho. Arroz, uma xícara para cada duas pessoas é o suficiente e, dependendo da hora, até sobra. Fica muito bom quando servido com uma salsinha picada esparramada em cobertura, e, é de bom costume, regar tudo com um fino fio de azeite extra virgem antes do ataque final.
Sendo prato trivial e comezinho vai bem com o vinho do dia-a-dia, ou então com honesto vinho da casa de restaurantes mais criteriosos, um bom tinto de mesa resolve a parada, sem problemas. Existem várias opções de Cabernet Sauvignon, Merlot ou assemblages fornecidas na embalagem Bag-in-box, uma ótima solução para o serviço de vinho a copo ou em jarra. Neste caso segue-se a regra da paridade de preços: o preço do vinho deve ser igual ao preço da comida.
Outra experiência interessante é explorar a oposição de valores, contrapor o simples ao sofisticado, tentando descobrir algum sentido neste jogo, é uma provocação do gosto. Para isto precisamos de um vinho caro, muito caro, um vinho caríssimo, quanto mais caro melhor, assim, mais surprendente será o resultado.
Abri uma garrafa dessas outro dia, buscando desvendar mistérios escondidos neste casamento. Estávamos reunidos, eu, meu fogão anos 50, uma panela de ferro preta, uma tábua de cortar carne e alguns ingredientes que encontrei na geladeira. Saiu bom, nada mau. Escolhi um tinto que reservava há décadas para uma ocasião especial que acabou não acontecendo. Um corte bordalês típico, potente, corpo robusto, taninos macios, elegância madura adquirida com anos de guarda, apresentava cor ligeiramente esmaecida, anunciando uma decrepitude próxima, porem conservava complexidade, aromas profundos, persistência e muita fineza em boca. Com pulso firme, verti todo conteúdo num decanter estilo cisne de pescoço negro, que reservo para momentos de reflexão. Ficou ali repousando enquanto preparava meu jantar...
domingo, 24 de julho de 2011
Sempre um vinho do Porto
Nasci magro, ou melhor, meu peso era médio, minha configuração de chegada até que era normal, mas nasci com baixa aptidão de ganho de peso, minha taxa de conversão alimentar veio marcada com um redutor biológico, um opcional de fábrica que existia naquele tempo.Pode parecer interessante, atraente ou desejável para muitas pessoas, mas não no meu caso, nasci em uma família de campeões de concursos de robustez e sei que minha ossatura saliente sempre trouxe preocupações. Hoje, aceito e compreendo porque fui submetido a tantas dietas alimentares, programas de engorda e doses exageradas de fortificantes e complexos vitamínicos. Tudo em vão, nenhuma funcionou comigo, derrotei todas as fórmulas de fábricas de medicamentos, todos preparados de farmácias de manipulação, todas benzeduras e mandingas camufladas que tentaram empurrar durante a vida. Cresci magro e continuo mais ou menos assim anda hoje em dia.
Minha vó Júlia foi quem resolveu o assunto. “Tudo isso é bobagem, não vai funcionar” – disse, “só um vinho do Porto endireita este guri” - completou. Foi minha sorte, me livrei de pílulas, drágeas, concentrados ou emulsões intragáveis e passei a receber doses regulares do meu néctar preferido. Era bom, me lembro, um copinho antes de todo almoço, outrora... tinha um martelinho em frente ao meu prato, ficava bebericando o tônico do meu crescimento enquanto escolhia a composição do meu almoço, aprendi a comer com calma, já era slow e ainda nem sabia o que era isto.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Todos os vinhos da presidenta
Já fiz o levantamento de custos, dividindo a conta por dez, ficará em trinta reais e ainda sobra algum para pedir um sanduiche aberto ou uma travessa de picadinho misto com azeitonas descaroçadas e pepinos em conserva. Tem mais o pagamento da rolha e o couvert artístico, se for dia de música. Prova medida e comedida, 75 ml do Chardonnay Reserva, 75 do Brut, 75 do Merlot Storia e 75 do Cabernet Gran Reserva, nesta ordem solene, sobriedade que o momento exige.
Depois, podemos dar uma esticada no Clube da Saudade, para relembrar os tempos em que nossa nova mandatária costumava ser a rainha daquele casarão bailançante.
domingo, 17 de outubro de 2010
Meu fogão Cosmopolita
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Tripas à moda do Porto
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Manteigaria Silva
Vendo este vídeo da Manteigaria Silva, aliás Merceária Lisboeta, aliás Casa do Bacalhau, lembrei desta minha passagem por São Paulo. Nele encontramos a explicação da origem do nome. A manteigaria vende bacalhau, queijos portugueses, frios, embutidos e bom vinho.
O vídeo é extenso, quase 30 minutos, mas vale a pena assistir. Ainda aparecem os vinhedos da Quinta do Gomariz em São Tirso, mostando os sistemas de condução adotados, e o restaurante Pedra Furada.
sábado, 17 de abril de 2010
Minha professora de tango tem 80 anos
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Linguado à Zibamba
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Entre Paulistânias e Itaipavas
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
O cravo escondido
sábado, 12 de dezembro de 2009
Espetinho de Gato
sábado, 14 de novembro de 2009
Bacalhau Pantaneiro
Já comi traira salgada, camarão salgado e outros peixes conservados pelo processo de salga, mas outro dia fiquei conhecendo uma receita vinda de Corumbá-MS, que me deixou com água na boca, “Bacalhau Pantaneiro”, este é o nome da matéria do Globo Rural, vou colocar o link lá no fim para quem quiser conferir.
O camarão salgado vinha de São José do Norte, sempre tinha um saco de aniagem guardado na despensa da casa de Dona Tonica, mãe de meu amigo Marco Vendaval. Costumava passar no apartamento da Rua Nova Iorque quase toda sexta-feira para tocar violão e ensaiar umas músicas novas, logo chegava o velho Edson para nos acompanhar e sempre acabava dedilhando uma antiga milonga mostardeira, que eu gostava muito de ouvir, o tom era Mi menor, nunca esqueci. A melhor parte dos ensaios era a chegada de um prato deste camarão que estou falando, a gente comia assim mesmo, seco e salgado, regado com algumas garrafas de cerveja gelada, coisa muito boa, nem sei se ainda fazem, pois entra ano e sai ano, e o camarão vai desaparecendo da Lagoa dos Patos.
A traira era da Lagoa Mirim, mais um lagoão desses que a gente não enxerga a outra margem, fica mais para o sul, indo na direção da fronteira com o Uruguai. O pessoal que vivia na costa da lagoa tinha o hábito de conservar o peixe na salga, era alimento garantido o ano todo. Passamos uma semana acampados nas terras de Wartião Azevedo, padrinho deste meu amigo, isto aconteceu lá por setenta e pouco e foi quando conheci esta iguaria. Lembro que meu prato veio tapado de espinhas, algumas delas muito pequenas e que davam muito trabalho de separar, ainda mais debaixo da luz de um lampião de querosene, mas a carne da traíra, preparada desta forma, é saborosíssima.
Bom, agora chegando ao Pintado. Gosto muito de filé de pintado, grelhado simplesmente, acompanhado de arroz, batata cozida ou um bom pirãozinho, para mim é muito melhor que salmão. E já comi um filé de pintado desses, lá em Corumbá mesmo, olhando toda beleza e largura do Rio Paraguai. De entrada era servido um caldinho muito revigorante, uma sopa feita de cabeça de piranha, um verdadeiro espetáculo, uma dessas jóias da cozinha do interior do Brasil.
Não vou sugerir o vinho agora, mas é claro que é um prato que pede e merece um grande vinho para acompanhar. Qualquer hora dessas vou aparecer em Corumbá para fazer esta escolha.
Para ver a receita da Dona Catarina Nunes, ingredientes e modo de conservar um peixe com sal, é só clicar neste link.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
1001 vinhos que não tomei
O homem permaneceu quieto durante quase toda a noite, provava todos os vinhos silenciosamente sem nada dizer, e parecia profundamente perturbado por algum estranho tormento da alma. Somente ao final do jantar, quando todos ainda conversavam animadamente e saboreavam uma última rodada de licor de butiá, foi que notei alguma alteração em seu comportamento. Subitamente começou a sorrir e passou a elogiar os vinhos servidos, a escolha dos pratos, o cozinheiro famoso especialmente convidado, a beleza da dona da casa, os vasos de orquídeas na varanda, a vista de toda cidade iluminada e o prazer de estar reunido, novamente, com verdadeiros e queridos amigos.
Havia completado 60 anos recentemente e tinha recebido de presente um livro com uma lista incompleta, uma relação de vinhos que deveria tomar antes de morrer. Examinando suas páginas ficou desanimado, e nos revelou não haver encontrado nenhum vinho sequer, que tivesse provado em sua longa e atribulada existência. Caiu em profunda depressão e começou a beber alem da conta. Restava-lhe pouco tempo, falou isto em tom de lamento...
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Uma solução hidroalcoólica
Estava jantando com meu filho, e decidi abrir uma garrafa de vinho tinto para acompanhar uma pizza de mussarela e lombo canadense, quando ele me perguntou o preço.
- Doze e pouco, comprei agora no supermercado, é chileno.
- Mas deve ser pura água - foi o comentário imediato dele.
Ou quase isto, foi o que me pareceu. Uma solução hidroalcoólica costumava dizer o Professor João Giugliani Filho em suas aulas de enologia, quando tratava de enquadrar esses vinhos sem corpo, sem alma, sem expressão alguma. E era um vinho redondo, ou melhor, era um vinho arredondado, que não deixava qualquer impressão ou lembrança. Tinha cor, mas não era cor, era um vermelho esmaecido e mortiço, tendendo mais para um granado evanescente. Nariz fugidio, quase imperceptível com alguma coisa de fruta vermelha, traços de amora e cereja. Na boca uma decepção, sem ataque, sem evolução, nem saudade, desapareceu sem ser notado.
Tomei dois cálices e desisti, fui assistir o noticiário da televisão.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
LA VIE EN ROSE
Atravessei as ruas do Menino Deus debaixo da maior água, chovia lindo na manhã de domingo, uma chuva generosa de pingos fortes, que lavava as calçadas e inundava todo o bairro. Fui assim cantando esta música até o viaduto da Marli, ainda cumprimentei o rosto desfigurado de D.Pedro I antes de cruzar a Borges e ficar aguardando o Assunção, ao lado de um pé de pata de vaca, que estava a derrubar suas últimas flores. Pobre D.Pedro, arrancaram-lhe o nariz e outras partes do bronze, apresenta algumas perfurações profundas, mas resiste firmemente preso ao lugar que lhe destinaram. Levava junto comigo uma muda de roupa, informações valiosas sobre vinhos, dois cálices de fino cristal e grandes recordações recentemente vividas...
Passei o sábado provando os vinhos da XVII Avaliação Nacional, trouxe a lista dos vinhos selecionados e a relação das vinícolas. São dados importantes para pesquisa e acompanhamento destes vinhos até o seu lançamento, nos próximos anos. São todos vinhos da safra 2009, muitos ainda repousam em tanques e deve demorar um pouco até o engarrafamento. É um excelente material para trabalhar e pretendo comentar estes vinhos no blog, trazendo informações dos enólogos e de pessoas do setor.
A Avaliação Nacional de Vinhos novamente foi um grande sucesso, com excelente organização, e neste ano trouxe algumas surpresas. Primeiro o show de Cristina Sorrentino, uma cantora lírica de rara beleza, com uma voz belíssima, que emocionou todos os presentes, o violino de Karlo Kulpa, o lançamento da taça do espumante brasileiro, uma criação da Associação Brasileira de Enologia, Embrapa Uva e Vinho e Cristallerie Strauss, a apresentação de Iotti não foi surpresa alguma, mas como em todas outras edições, sempre é imperdível, acontecendo na hora certa e fazendo todos rirem. Reencontrei grandes amigos, e tivemos grandes conversas, mas não consegui cumprimentar todo mundo como queria, algumas pessoas somente de vista. No final o dia passou voando e eu precisava voltar para casa.
domingo, 5 de julho de 2009
A condenação de Maria Antonieta
Tinha nove anos quando meu pai serviu minha taça de champagne e, pela primeira vez em minha vida, escutei ele contar esta verdadeira história. O jovem Rei Luis XVI apaixonado pela rara e extrema beleza dos seios de sua esposa, decidiu eternizar tamanho encanto e fermosura. Chamou então os melhores artífices do reino e ordenou que aqueles delicados e suaves contornos, fossem reproduzidos em forma de taças do mais puro cristal. Sonhava em poder beber daquela fonte de inspiração por toda sua vida. Maria Antonieta não corou ao desnudar-se para as primeiras provas, fez isto com muito sentimento e retribuição aos desejos de seu amado. Logo todos puderam conhecer o magnífico resultado alcançado e as taças fizeram muito sucesso por salões de palácios e castelos de toda França.
Minha mãe, que tinha alguma ascendência francesa, não tomava vinho e não aprovava estas libações precoces, costumava contar em versos de rima única o trágico destino da rainha e com irônica crueza nos fazia saber das dilacerações mais íntimas de Marie Antoinette. Aos poucos, durante a celebração das festas de fim de ano, entre borbulhas e taças transbordantes dos melhores espumantes de Garibaldi, meus irmãos, primos e primas, inspirados por estes mesmos versos, iam recriando todo o drama, com novos versos, mas com a mesma rima. Muitas vezes eles ganhavam ritmo, misturando-se com os sons que vinham do toca-discos da sala de estar. Minha avó paterna, Christine Julie, gostava muito de cantar nestes encontros de família e nos ensinava canções, que os trabalhadores das minas de carvão extraiam das profundezas do vale do Ruhr. E quase sempre terminávamos estas noites celebrando a derrubada da monarquia e renovávamos nossas esperanças pelo fim de todas as formas de opressão do homem e da mulher.
Hoje em dia elas caíram no mais completo desuso, são inadequadas para apreciação de um espumante, não permitem uma boa visualização das borbulhas, os aromas perdem-se rapidamente. Viraram peças de colecionadores, ou servem então para o preparo de sobremesas requintadas. A minha Maria Antonieta era única, ficava o ano inteiro na cristaleira da sala de jantar e apenas nestas ocasiões tinha o prazer de tocar suas formas, e foi assim por muitos anos. Nunca mais a vi, extraviou-se entre tantas mudanças que conheci ao longo de minha vida, mas nunca perdi o gosto que ela me trazia.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Nós que nos amávamos tanto
C’eravamo tanti amati é o título original deste belíssimo filme dirigido por Ettore Scola. Narra 30 anos de história da Itália (1945-1975), mostrando encontros e desencontros, aventuras amorosas e desilusões de três grandes amigos que se reaproximam na meia idade. Com Nino Manfredi e Stefania Sandrelli, com Stefania Sandrelli e Vittorio Gassman, com Stefania Sandrelli e outros. Tem ainda participações de Marcello Mastroiani, Federico Fellini e Vittorio De Sica de menor expressão, todos tentando representar eles mesmos.
A primeira vez que o assisti deve ter sido em 1976 ou 1977, não me lembro direito. Sei que foi no ABC, um pequeno cinema de rua, que ficava na Venâncio Aires, e fechou as portas já faz muito tempo. Fui sozinho, sai de lá bastante emocionado com este filme tão marcante, e nunca mais deixei de assistir nenhum filme deste diretor.
Ao sair do cinema fui direto ao Pedrini, não devia ser muito tarde. Escolhi uma mesa ao ar livre, debaixo de uma enorme figueira, que havia no pátio dianteiro do restaurante. Solicitei ao garçon que trouxesse uma garrafa do melhor chateau da casa. Escolhi um Filé Xadrez para acompanhar o vinho e a solidão daquela noite, era para ser o suficiente, pois também, para mais não dava o dinheiro que trazia na carteira. Lembro que veio numa travessa de inox, ornado com uma insólita folha de alface crespa, um punhado de azeitonas espanholas lançadas em cobertura e alguns gomos de limão para temperar na hora. Receita simples e bem preparada. Alguns palitos para espetar os pedaços de filé, alguns goles de vinho para passar o tempo e pensar na vida. Nada mais precisava naqueles dias longínquos.
Trinta e poucos anos depois, retornei ao mesmo local acompanhado de duas estudantes de agronomia.. Uma delas, eu já conhecia há mais tempo, havia sido minha colega num curso intensivo de bioquímica, realizado no prédio antigo da Faculdade de Medicina. Era uma loura perturbadora, de movimentos radicais e gestos insinuantes. A outra, tinha os cabelos tingidos de vermelho, os olhos eram de um azul profundo, suaves e brilhantes ao mesmo tempo. Nariz delicado e enigmático, a boca carnuda, volumosa, taninos maduros e perfeitamente resolvidos, retrogosto de impressionante persistência. Tomamos alguns chopes, pedimos bolinhos de batata, um sanduíche aberto...
terça-feira, 12 de maio de 2009
O cerco das tainhas
Nas peixarias do Mercado Público de Porto Alegre elas estão sendo anunciadas com preços convidativos, já chegou tainha de Laguna (SC), mas a de Cabo Frio, que é um pouco mais graúda ainda demora a aparecer. Os restaurantes tradicionais e os novos restaurantes que surgiram nos altos do mercado se esmeram no preparo de suas receitas, é o principal peixe da estação. Última moda é a Tainha assada em telha de barro, servida com guarnição de folhas verdes, arroz, pirão e alguns pedaços de limão Taiti para pingar o sumo por cima.
Não é triste ver, mas a grande maioria das pessoas prefere pedir cerveja para acompanhar este prato, é só uma constatação. Triste é não encontrar um vinho adequado em quase todos estes restaurantes, é uma injustiça e uma insensatez praticada contra esta musa de nosso outono.
É um peixe de águas temperadas, esta M.platanus vive somente aqui, no lado ocidental do Atlântico Sul, sendo pescada desde a Argentina até o Rio de Janeiro. A família Mugilidae é muito grande, existindo várias espécies espalhadas pelo globo. Andei pesquisando receitas da cozinha italiana e portuguesa, tem muita coisa de dar água na boca.
